“Consciência Negra” Professora aposentada conta sua experiência de vida

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Do pesado trabalho na roça à direção de escola; Elidia ensina que a Educação é o segredo para qualquer problema, principalmente o preconceito.

Elidia Salustiano Domingos dos Santos, 57 anos, casada com Aparecido dos Santos Rosa, o “Cidinho” da Ótica Titanium; tem 2 filhos Bruno (27) e Mariana de 25 anos. Atualmente aposentada ajuda o marido na empresa da família que existe há 5 anos, mas nem sempre foi assim tão tranquilo.

Nascida em Macedônia, morava com os pais e irmãos numa fazenda. Desde pequena ajudava a sua família na roça, trabalho pesado na enxada, no sol e sem regalias.

“Meu pai era lavrador, mas sempre dizia aos filhos que lá nunca íamos chegar a lugar nenhum, por isso em 1971, mudamos para Votuporanga. Ele queria que seus filhos tivessem alguma formação. A vida toda ele dizia que a gente tinha que estudar, para ser mais do que ele foi”, conta Elidia.

“Meu pai trabalhou durante 30 anos numa única fazenda e com o acerto comprou uma casa aqui em Votuporanga. Na mesma época conseguiu sua aposentadoria pelo Funrural. Nessa época eu estava na 3ª serie, tinha apenas 9 anos e consegui a transferência para a Escola Uzenir. Ali nasceu minha vocação para a Educação. Tive como professora a Dona Anita Lievana Camargo e diretor o Sr. Geiner Rodrigues. Era muito diferente, a carreira de professor naquela época era glamorosa, as professoras, Lídia Leite, Cida Beretta, Ciluca, eram muito alinhadas, se vestiam com muito capricho”, lembra.

“No Uzenir fiquei até o atual nono ano, ai fui para a Escola Manoel Lobo para concluir o Ensino Médio, mas quando estávamos na metade do curso, entrou como diretora a professora Olga Balbo Ferreira Fontes. Na época o governo havia excluído o Magistério daquela escola. Então a D. Olga fez de tudo para que o curso de formação de professores voltasse a ser ministrado ali. Só que existia um porém; nos já estávamos no 3º ano do ensino Médio, teríamos que voltar ao segundo ano, para o Magistério ser validado.   Parecia loucura, todos riram da D. Olga, mas ela nos deu uma semana para pensar. Passado o prazo topamos o desafio. Não tínhamos dinheiro para pagar faculdade, então essa era uma das únicas oportunidades que tínhamos”, relata.

“Fazer Faculdade era um sonho, mas impossível, não tinha condições financeiras, como trabalhava de dia numa loja de aviamentos perto da Santa Casa, encarei o Magistério a noite. Quando eu terminei o curso no final de 1985, logo no inicio de 86 comecei a dar aula pra prefeitura em pré-escola. Foi uma transformação na minha vida. Trabalhei no Pro Povo e passei pela Casa da Criança. Neste interim comecei a pensar em cursar uma faculdade; fiz Geografia na Unifev e logo no final do curso já ministrava nesta nova grade de ensino que havia me formado. Antes, porém passei num concurso de PEB 1 no Estado. Fiquei efetiva no Estado durante 7 anos, trabalhei em varias escolas como a Maria Nívia, o Mimo e no Eni, nesta época prestei novamente o vestibular e fiz o curso de Pedagogia. Em janeiro de 2000 prestei um concurso para diretor de escola e ingressei no cargo quando ainda não tinha acabado o curso. Aqui não existia vaga então fui para Diadema na grande São Paulo. Passado uns 4 anos voltei para Riolândia como diretora, e em cidades como Ida Iolanda, São João do Marinheiro, etc. Foram 32 anos de muito trabalho, até chegar aqui”, conta.

Para falar sobre a data comemorada hoje (20) Dia da Consciência Negra, ela conta que o preconceito é invisível e não é muito explicito. “Eu nunca liguei muito, não tinha tempo, estudava muito, tinha foco, lia, não deixava acontecer esse problema na minha vida”, ensina.

“O preconceito existe muito entre alunos. Não se vitimize passe por cima, estude; não tenham duvida que o professor também tem que ajudar a conduzir a situação. Quando assumi a escola em Diadema a maioria dos alunos era negra ou parda, nordestinos, quase 3 mil alunos,  e eles se identificaram comigo, porque a diretora era negra, não tive problemas”, conta.

Sobre as cotas para negros nas universidades Elidia disse que é necessária, mas temporária, não precisa ser uma coisa eterna.

“Hoje é mais fácil o acesso ao estudo do que há 32 anos, existe a Fatec, as Etecs, o Instituto Federal, as escolas EAD (on line), eu mesma já fiz excelentes cursos a distancia. A minha condição para sair da pobreza absoluta para chegar onde estou hoje foi fundamental o estudo. Meus pais me incentivaram muito a estudar, a maioria dos meus irmãos ou fez faculdade ou se habilitou em alguma área técnica, todos vivem muito bem e são ótimos profissionais. O caminho não só ao negro como a qualquer jovem é a educação”, explica.

Hoje ela conta que esta aprendendo uma nova profissão e na loja de óculos do marido ela vive uma experiência nova, o comercio.