Cartas para uma sociedade imediatista 

24
Rosaline Gallo, professora, escritora e idealizadora do Prêmio Literário Cartas - Foto: Milena Aurea

Prêmio literário resgata o gesto de escrever ao outro e abre inscrições até 19 de abril; textos selecionados integram antologia e exposição.


@caroline_leidiane

No contexto em que as palavras se comprimem em telas e chegam ao outro quase sem corpo, há experiências que se perdem no caminho. A carta, gênero textual utilizado para a comunicação escrita entre um remetente (quem escreve) e um destinatário (quem recebe), carrega o simbolismo do romântico e traz algo de analógico para o tempo atual, onde o corriqueiro são mensagens instantâneas.

A elaboração do pensamento, a escolha minuciosa do léxico, o silêncio e a introspecção, próprios da escrita intimista e solitária, são distantes da pressa ansiosa do imediatismo e transferem afetos e emoções à carta.

É nesse território que se insere o Prêmio Literário Cartas, iniciativa que convida participantes a escreverem a alguém significativo em suas trajetórias. A edição de 2026 está com inscrições abertas até 19 de abril, com textos em língua portuguesa de até 4 mil caracteres. Podem participar maiores de 18 anos, residentes ou não no Brasil, mediante envio do material e taxa de leitura. As 50 cartas selecionadas integram uma antologia impressa, com premiação para os cinco primeiros colocados — incluindo o Troféu Monteiro Lobato para o vencedor. 

A origem do prêmio remonta a um gesto anterior, vinculado à tradição da escrita epistolar cultivada em um espaço cultural. Segundo a idealizadora, a proposta nasce de uma continuidade afetiva e significativa. 

“O Prêmio Literário Cartas é uma continuação de um projeto desenvolvido há mais de dez anos, na Sociedade Cultural Italo-brasileira Amici d’Italia. Foi uma iniciativa que pretendeu homenagear a profa. Fúlvia Tessarolo, a primeira professora de italiano da entidade, que escrevia e respondia cartas italianas a parentes daquele país, muito antes de surgir o filme ‘Central do Brasil’”, afirma a professora, escritora e organizadora Rosaline Gallo.

A retomada do projeto, anos depois, desloca o foco do vínculo familiar para um horizonte mais amplo, mantendo, porém, a mesma inquietação diante da comunicação contemporânea.  

“O primeiro objetivo era o mesmo: a escrita de uma carta e o resgate da comunicação verbal, já que atualmente a comunicação humana anda muito precária”, diz ela.

A escolha pelo gênero não se dá por nostalgia, mas por uma percepção crítica sobre a linguagem atual. A proposta tensiona a lógica da rapidez, propondo outro tipo de relação com a palavra. 

“A atualidade da escrita tem sido marcada por uso de abreviações e emojis. Como professora de português, sempre estive incomodada com o fato de perceber que os mais jovens lidam com pouca paciência com a comunicação. As frases surgem recheadas de expressões sem sentido, com construções sem coesão ou coerência”, observa Rosaline. E explica: “A escrita de cartas visa exatamente resgatar um diálogo à distância.”

A curadoria do prêmio se organiza de forma colaborativa, tanto na definição dos temas quanto na condução do projeto. A temática (destinatário) de cada edição acompanha o espírito do tempo — neste ano, “Uma pessoa importante em minha vida”. 

“Sou criadora do projeto, mas não atuo sozinha. Tenho ao lado o jornalista e editor Deodoro Moreira e o publicitário Cyrineu Massucatto. Juntos, discutimos e definimos o andamento de tudo. Os destinatários escolhidos variam conforme a atualidade na qual estamos inseridos”, salienta.

O processo de avaliação também segue critérios literários rigorosos, preservando o anonimato dos autores. Após a inscrição, os textos são organizados e enviados a jurados ligados ao campo da literatura.  

“São retiradas as informações que identificam o remetente e o texto ganha um número. Em seguida, são montados grupos de cartas e enviados aos jurados. Os critérios observam qualidade literária e respeito ao regulamento. Cada jurado envia sua classificação, e o resultado é apurado”, detalha. 

Lançamento da edição 2025 do Prêmio Literário Cartas, realizado no Riopreto Shopping Center, em dezembro do ano passado – Foto: Milena Aurea

Entre a literatura e a vida 

Se o gesto de escrever cartas pode parecer deslocado no presente, a história literária sustenta sua permanência. A própria premiação evoca essa tradição ao homenagear autores que fizeram da correspondência matéria de obra.  

“O gênero epistolar pode parecer obsoleto, esquecido ou até ‘coisa de velhos’. Não me abalam essas críticas infundadas. A literatura mundial comprova que as cartas, ainda hoje, são usadas. Há autores que tiveram sua correspondência publicada ou até fizeram livros usando esse gênero literário. Podemos citar Rilke (‘Cartas a um jovem poeta’) ou mesmo Monteiro Lobato (‘A barca de Gleyre’), fruto de sua correspondência com o amigo Godofredo Rangel”, lembra Rosaline.

O projeto se desdobra em livro — não como arquivo inerte, mas como espaço de circulação de experiências. 

“As antologias não são livros para enfeitar estantes. Trazem à tona emoções e reflexões profundas. Contêm a alma de pessoas que decidiram deixar exalar seus sentimentos”, declara.

A publicação se articula a um evento de lançamento que amplia a dimensão coletiva do prêmio. As cartas premiadas são lidas integralmente, trechos das demais compõem uma exposição, e o público participa desse encontro entre escrita e escuta. “São intensas as emoções que perpassam a manhã dessa finalização”, enfatiza a organizadora.

Ao propor a escrita de uma carta o prêmio reabre um espaço raro: o da palavra que se demora, que constrói sentido ao longo do percurso. Em tempos de urgência, trata-se quase de um gesto de resistência.

As inscrições e o regulamento completo do Prêmio Literário Cartas estão disponíveis no site oficial www.premiocartas.com.br, onde os interessados podem acessar as orientações para participação e acompanhar as etapas da edição vigente.