Por décadas, o imaginário coletivo de Votuporanga parecia orbitar em um espaço geográfico e social restrito. Havia uma espécie de convenção invisível de que a cidade se resumia a quatro quarteirões à esquerda e à direita da Rua Amazonas. Esse quadrilátero central não era apenas o coração comercial; era o limite do pensamento, o termômetro da opinião pública e o cercado onde a política local era gestada e consumida. No entanto, o horizonte mudou. A Votuporanga de hoje rompeu essas amarras físicas e simbólicas, expandindo-se para todas as direções e, mais importante, para dentro de uma pluralidade que não aceita mais as antigas fórmulas de silenciamento.
Esse crescimento não é apenas estatístico ou imobiliário. O surgimento de novos bairros e a verticalização trazem consigo uma diversidade de vozes, origens e expectativas. A cidade ficou maior, e com o tamanho veio o pluralismo. O “plural”, aliás, é o combustível da democracia. Quando uma comunidade deixa de ser um bloco homogêneo para se tornar um mosaico de pensamentos, a gestão pública é forçada a sair da zona de conforto. O que antes era resolvido em conversas de bastidores, entre poucas famílias ou grupos de influência, agora precisa enfrentar o crivo de uma população que ocupa as redes sociais, os canais de comunicação e as esquinas com um novo nível de exigência.
Os sinais dessa metamorfose são nítidos e já transbordam para as ruas. A comunicação local, outrora mais contida, hoje reflete o fervor das massas. A passividade deu lugar ao questionamento. O exemplo mais latente dessa nova postura reside na atual crise ou discussão sobre a gestão da água. O que poderia ter sido um debate técnico confinado a gabinetes transformou-se em um estopim social. Vimos reações enérgicas no Legislativo, ecoando a insatisfação popular, e fomos testemunhas de algo raro na história política da cidade: movimentações e manifestações nas proximidades da residência do Executivo.
A mensagem é clara: o muro que separava o governante do governado tornou-se permeável. A política de “feudo”, onde o poder era exercido dentro de limites protegidos e sob o olhar de poucos vassalos, está ruindo.
Historicamente, o poder de feudo sobrevive enquanto existem muros — sejam eles muros de concreto, muros de desinformação ou muros de apatia. Uma vez que esses muros caem, a dinâmica muda radicalmente. O cidadão de Votuporanga entendeu que a cidade lhe pertence, do Pozzobon ao Simonsen, e que a transparência não é um favor, mas uma obrigação. As reações recentes em torno da questão hídrica não são apenas sobre “água”; são sobre a dignidade do serviço público e o direito de ser ouvido.
Este cenário serve como um alerta contundente para quem pleiteia o comando do município nas próximas gestões. O tempo do “amadorismo planejado” e das decisões tomadas por um círculo restrito de influenciadores chegou ao fim. Quem deseja assumir a cadeira do Executivo ou do Legislativo precisa se acostumar com o novo ritmo: a cobrança será direta, o escrutínio será constante e a paciência com o autoritarismo velado é zero.
Votuporanga cresceu e, felizmente, não cabe mais naquele molde estreito de outrora. A pluralidade é um caminho sem volta. É daqui para melhor, desde que o poder público entenda que governar uma cidade plural exige muito mais do que asfaltar ruas; exige a capacidade de dialogar com uma sociedade que aprendeu a erguer a voz e a derrubar muros.
* Prof. Dr. Marcos Palácio – [email protected] – Doutor em educação pela FAGU-USA, Doutor Honoris Causa pela Escola superior de justiça de Minas Gerais, articulista e Pós-graduado em gestão e análise pública.
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