Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Tem dias em que a escola amanhece cheia de palavras bonitas.
Empatia, por exemplo.
Ela costuma chegar cedo, antes mesmo do sinal, colada em slides coloridos, estampada em cartazes novos, impressa em letras grandes como quem tenta convencer pela fonte.
Está nas pautas das reuniões, nos projetos institucionais, nas falas inspiradoras de quem, curiosamente, quase nunca precisa lidar com uma sala com várias crianças às sete da manhã de uma terça-feira qualquer.
A empatia, ali, é impecável. Não falta a ela nem ortografia, nem intenção.
Falta só destino.
Outro dia, numa dessas formações que começam com café morno e terminam com a alma fria, ouvi que precisamos “olhar para o aluno em sua integralidade”. Concordei com a cabeça, esse movimento automático que o corpo faz quando a esperança ainda tenta sobreviver, enquanto isso, minhas olheiras, pouco integrais, denunciavam que eu mesmo já não cabia dentro de mim.
Falava-se de acolhimento, de escuta, de cuidado. Tudo muito correto e necessário, mas tudo muito… distante.
Porque, enquanto aprendíamos sobre como acolher, ninguém perguntou quem estava nos acolhendo.
A escola, às vezes, me parece um palco bem iluminado, onde o discurso ensaia perfeição, mas basta dar dois passos para trás, ali, onde a cortina não cobre e o que se vê são professores equilibrando cadernos, prazos, frustrações e uma espécie de cansaço que não cabe em relatório nenhum.
É curioso, pedem que sejamos inteiros para os alunos, mas nos oferecem migalhas de inteireza.
Pedem paciência infinita, mas têm pressa com nossas falhas. Solicitam escuta ativa, mas respondem nossos silêncios com mais tarefas e a empatia, nesse cenário, virou quase um objeto decorativo, bonito, necessário, mas cuidadosamente mantido à distância da prática.
E não me entenda mal, eu acredito na empatia. Acredito tanto que a pratico todos os dias, mesmo quando não sobra quase nada de mim para oferecer.
Está ali, por exemplo, quando um aluno não consegue juntar as letras e eu finjo que o tempo não existe ou quando a aluna chega sem a tarefa, porque o final de semana não foi muito bom e eu finjo que não percebo para não ferir sua dignidade.
Quando o alecrim explode em gritos e eu, por dentro, já estou em pedaços, mas ainda assim escolho não gritar de volta.
A gente aprende a ser continente, mesmo transbordando.
O problema é que ninguém pergunta o que acontece com o que transborda.
Para onde vai o que a gente engole?
Em que canto da escola se guarda o professor que já não deu conta hoje?
Há uma romantização silenciosa que nos atravessa, uma ideia de que o bom professor é aquele que suporta, que resiste, que se reinventa, que “faz por amor”.
E fazemos. Meu Deus, como fazemos.
Mas amor nenhum deveria ser usado como argumento para naturalizar o abandono.
Outro dia, ao final de mais uma reunião sobre clima escolar, saí com a sensação de que éramos excelentes em diagnosticar feridas, desde que elas não fossem nossas.
Falamos de vínculos, mas cultivamos distâncias, pedimos mais cuidado, mas protocolamos afetos. Queremos falar de humanidade, mas esquecemos de olhar para quem, todos os dias, sustenta a humanidade possível dentro da sala de aula.
E seguimos.
Porque há algo em nós, talvez teimosia, talvez fé, algo que insiste em planejar aula depois de um dia ruim, insiste em sorrir quando o corpo pede silêncio, acreditar que, apesar de tudo, alguma coisa ainda floresce.
E floresce mesmo.
Às vezes, no meio do caos, um aluno lê a primeira palavra e ali, naquele instante mínimo, a gente se reconstrói um pouco.
Mas confesso que tem dias em que cansa ser sempre o lugar onde o cuidado começa e nunca onde ele chega.
Tem dias em que a empatia da escola parece uma promessa feita para todos… menos para quem ensina.
E é aí que a pergunta fica, quieta, dessas que não fazem barulho, mas não vão embora,
se a escola ensina tanto sobre empatia, em que momento ela vai, de fato, aprender a olhar para os seus próprios professores?




