Era para ser bonito.
A loja estava cheia na semana do Dia da Mulher. Movimento bom, equipe animada, aquela sensação de que valia a pena fazer algo especial. Alguém teve a ideia: — “Vamos homenagear nossas clientes nas redes sociais.”
Parecia perfeito.
Pegaram algumas imagens do sistema interno, outras das câmeras da loja, algumas fotos antigas do cadastro. Montaram uma arte bonita e publicaram com a legenda:
“Parabéns às mulheres que fazem parte da nossa história.”
Curtidas começaram a aparecer. Comentários elogiando a iniciativa. A equipe comemorando.
Mas do outro lado da tela, a história era outra.
Uma das mulheres que apareceu na foto estava passando por um momento delicado da vida e evitava expor onde frequentava.
Outra trabalhava no serviço público e fazia questão de manter a vida pessoal longe das redes sociais.
Outra simplesmente não gostava de ter sua imagem usada por empresas.
Nenhuma delas tinha autorizado aquilo.
O que era para ser uma homenagem virou exposição.
Todos precisam se lembrar que imagem também é dado pessoal.
Assim como nome, telefone, endereço, histórico de compras ou informações de saúde. Tudo isso fala sobre alguém. Tudo isso identifica alguém.
E quando uma empresa usa esse tipo de informação sem perguntar antes, ela atravessa uma linha importante: a da privacidade.
Muita gente acha que se a foto foi tirada dentro da loja, ou se o cliente já fez cadastro, então está tudo liberado.
Não está.
O fato de alguém frequentar um lugar não significa que quer aparecer publicamente associado a ele. Muito menos em uma postagem que pode circular pela cidade inteira em poucos minutos.
Em cidades do interior, então, isso ganha outro peso. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém. Uma imagem publicada pode chegar a pessoas que o cliente nunca imaginou.
Homenagem de verdade não expõe. Celebrar o Dia da Mulher é importante. Valorizar, reconhecer, agradecer — tudo isso faz sentido.
Mas respeito não é só intenção. É também cuidado.
Se a ideia é homenagear clientes, peça autorização.
Se for usar imagem, explique antes.
Se alguém disser que prefere não aparecer, respeite.
Porque privacidade também é uma forma de respeito.
Flor é bonita. Postagem também.
Mas respeito não é só flor e postagem bonita no domingo.
É também entender que imagem não é material de marketing disponível.
Que dado pessoal não é lembrancinha de campanha.
Quem ainda não percebeu isso continua confundindo homenagem com exposição.
Christiano Guimarães – consultor em Segurança da Informação e autor do livro Como Adequar Minha Empresa à Lei Geral de Proteção de Dados – Um Guia Prático





